19/05/2013

Marrakech: tour guiado pelo souk

 Na visita anterior a Marrakech, eu e minha irmã arrastamos nossa figura pela Medina em quase todos os dias que ficamos na cidade. No final, independente da programação por ali, sempre dávamos um jeitinho de passar pelo souk e pelo caos sedutor da praça Djeema El-Fna.
Mas nossas andanças pelo souk eram muito controladas: só circulávamos pelas ruelas principais, mais largas, cheias de gente e apinhadas de barracas, como nos tinha sido recomendado por questões de segurança. Só que sabíamos que havia muito, muito mais por ver, e eu fiquei com essa curiosidade guardadinha.
 Até que li recentemente sobre os tours guiados pelo souk, que estão ficando cada vez  mais comuns em Marrakech. Chegando lá, contei à concierge do Four Seasons, onde eu estava hospedada, sobre minhas leituras a respeito e foi ela mesma que se encarregou de encontrar um guia para me acompanhar na empreitada (para quem se interessar, vale dizer que, durante minhas andanças pelo souk, encontrei várias outras pessoas, hospedadas nos mais diferentes hotéis, fazendo o mesmo tipo de tour. Os preços variam muito, dependendo do tour contratado ser privativo ou em grupo).
 Partimos antes das 9h (quanto mais cedo, melhor, para evitar o calorão) e descemos do táxi já "pelos fundos" do souk, numa ruela tortinha e deserta da medina. Ali já havia um cenário diferentão das ruas movimentadas que eu tinha ficado acostumada a frequentar: um cubículo com um chaveiro que utilizava ferramentas que pareciam oriundas do século XVIII, duas senhoras de burca conversavam em frente ao portão de uma das casas, um senhorzinho costurava um sapato logo ao lado.
Bordados que valem fortunas
 Vale lembrar que a Medina é um mundinho à parte em Marrakech. Se, por um lado, a cidade tem toda essa vibe internacional e jetsetter, com um zilhão de expatriados vivendo ali e turistas do mundo inteiro visitando, o interior da medina ainda parece uma vila marroquina. Ali os moradores falam somente em árabe entre si, as mulheres andam muito (mesmo!) cobertas, os homens usam vestes típicas e uma turista branquela como eu (com roupas comportadas, é claro), andando por ali acompanhada de um guia árabe numa manhã de domingo, despertava mais curiosidade das crianças que qualquer outra coisa.
Um grupo de turistas alemães fazendo um tour igualzinho ao meu
 Enquanto as áreas mais turísticas do souk estão separadas por "especialidade" (as entradas das ruelas, que agora contam também com placas novinhas com seus nomes escritos em francês, ainda ostentam aquelas placas velhas que informam qual a rua dos tapetes, das bijuterias, das coisas para casa, das vestimentas tipicas bordadas etc), existe toda uma área não sinalizada que somente quem é dali ou anda muito por aquelas bandas conhece. Um labirinto absurdo, que mostrou uma extensão muito maior daquela área do que eu poderia supor, num emaranhado de ruas que me pareceu impossível de decifrar. Espertinha, não desgrudei do guia na maior parte do tempo ;)

 O setor é majoritariamente masculino: todos os vendedores e artesãos que conheci eram homens ("nossas mulheres estão em casa, cuidando da família, como deve ser", me responderam todas as vezes que indaguei a respeito). Só vi mulheres no quadrilátero da feira - e lá elas compravam itens para fazer o almoço, não vendiam nada.

 Passamos pela rua dos sapatos, onde artesãos fazem em família - pai, filho, neto - os sapatos em couro, à mão (aliás, dá pra ver imensas quantidades de recortes de couro que virarão sapatos e bolsas espalhados ao sol, para secar em alguns cantos). A rua dos móveis, onde homens de todas as idades cortavam peças de madeira para montar mesas, cadeiras, cômodas, molduras de espelhos. A das ferramentas. A rua dos antiquários, com peças muito, muuuuuuito antigas expostas inclusive do lado de fora das lojas. A rua dos enxovais, onde trajes típicos bordados para casamentos chegam a custar milhares (sim!) de euros. A zonas das tapeçarias, que conta, inclusive, com uma cooperativa só de mulheres (em geral, abandonadas pela família ou marido) para confecção artesanal dos mesmos. O quarteirão das especiarias, onde se vende tudo com um propósito (ali aceitei convite para entrar e tomar um chá em uma das lojas enquanto via gente entrando e saindo, com os mais distintos problemas de saúde, atrás de ervas, sementes e afins para a cura de seus males). O beco da comida, onde homens - sempre eles - fazem e vendem bolinhos de todo tipo, carnes, café, chás, pães árabes etc desde cedo, numa área pequena e esfumaçada, com cheiro de fritura velha.






 Ao longo da manhã, vi bolsas, bijuterias, móveis, trajes de enxoval bordados serem feitos pacientemente, num trabalho manual delicado que me causou surpresa, depois de ver tantas coisinhas made in China à venda nos corredores mais turísticos do souk.  Ouvi histórias mil, vi crianças jogando bola (com camisa do Ronaldo e tudo), respondi perguntas sobre o Brasil, vi portas lindas em casas de mais de um século, senti o perfume de tantas especiarias distintas e até aprendi um pouco sobre a utilidade das mesmas. Ouvi algumas bobagens também, é claro, mas isso era inevitável (recebi também vários convites para entrar nos estabelecimentos para tomar chá e achei prudente educadamente recusar todos eles).

De burca na feira




Os tapetes à venda nas lojas tipicamente masculinas...
... e a produção manual deles na cooperativa feminina
Depois, ainda aproveitei que o horário do tour de meio dia contratado não tinha chegado ao fim e pedi ao guia que me acompanhasse na visita à Madrassa e ao museu, duas das atrações mais interessantes e belas da Medina (e da cidade) na minha opinião. E, claro, antes de ir embora (eu já tinha deixado acertado de um táxi me pegar na entrada da Djeema El-Fna), fiz questão de passar pelas ruas mais turísticas do souk para ver, entre as coisinhas artesanalmente feitas nos bastidores do souk e as peças feitas em série na China, se tinha algo que me interessava - e fiz umas comprinhas, ofcoursemente :D
Recomendo muito. 

De volta a Marrakech

A bela propriedade do Four Seasons por lá
 Quatro anos atrás, visitei Marrakech pela primeira vez, acompanhada de minha irmã, e vivi uma história de amor e ódio com a cidade. Amor pelo exotismo árabe, pelo tempero africano, pelo sotaque francês, pelas cores, pelos cheiros, pela comida. Ódio pelo perrengue que foi aturar uma semana de um assédio duro e, por muitas vezes, ofensivo, pelo trânsito, por tudo ter que ser negociado, porque atravessar as ruas (sem faixa de pedestres, entre carros, carroças, motos) era um exercício diário de luta pela vida. Disse que só voltaria para lá acompanhada de um homem e em alto estilo.
Convite para o chá: no hotel, no souk, nos restaurantes, nas lojas, sempre
 Bom, quebrei a promessa, mas só pela metade: voltei a Marrakech em abril passado completamente sozinha - mas fiz questão de me hospedar num hotelaço (o divino-maravilhoso Four Seasons Marrakech), ainda mais agora que a cidade vive um boom da hotelaria de luxo. E, quer saber? Adorei.
 Bom, passei um perrengue logo na chegada: foram duas, DUAS horas na fila da imigração. Era gente demais. Eu nunca tinha visto um saguão tão lotado; eram muitos grupos, muitos voos chegando ao mesmo tempo (comecinho da noite), e o sistema lento de registro que piorou tudo. E fazia um calor de 37 graus diariamente. Mas gostei, e muito, dessa nova escapada marroquina. Já comecei deixando acertado previamente um transfer do aeroporto ao hotel para evitar aquele sentimento de minhoquinha atacada por aves sem fim que a gente sente ao sair em meio ao mar de táxis e taxistas bem em frente ao saguão de desembarque (aviso: quem não deixa transfer pré-agendado tem que, como eu e minha irmã fizemos em 2009, negociar o preço da corrida até o hotel)

 Marrakech é uma excelente escapada para quem está na Europa. Os voos são curtos e, em geral, bem baratos (paguei quase 350 euros para voar de Easyjet, mas porque eu estava em Milão; de Madri e Paris, por exemplo, as ofertas costumam ser sensacionais). A cidade mudou nesses quatro anos. Não que fosse tradicionalista antes, longe disso – faz tempo que Marrakech tem essa vibe jetsetter, mas esse viés se expandiu muito nesses últimos tempos. E a cidade também ficou mais segura: há câmeras espalhadas por vários pontos da Medina e do souk e várias atrações têm policiamento visível.

As atrações continuam sedutoras: dos palácios ao souk, impossível não se deixar levar pelos encantos de Marrakech. O próprio caos de Marrakech é sedutor. Refiz vários dos passeios que tinha feito na visita anterior – Jardin Majorelle, os Palácios, a sen-sa-ci-o-nal Madrassa Ali Ben Youssef – e continuo recomendando todos.

 Usei novamente o citysightseeing bus da cidade por 48h e continuo achando um negocião – agora são 3 rotas diferentes, todas incluídas no mesmo ticket (na visita anterior eram apenas 2) que chegam não apenas às atrações mais comuns como também às mais antigas, do Palmeirae ao novo big mall da cidade. E, claro, acho que curtir o caos da praça Djema el-Fna é simplesmente essencial, de dia e, sobretudo, no fumacê do final de tarde.


 Também acho que vale a pena contratar um tour guiado pelo lado B do souk. É claro que todo mundo explora as barraquinhas que vendem de tudo por lá – agora, muitas delas surpreendentemente com preço fixo dos produtos, boas para quem, como eu, odeia pechinchar. Mas ter um guia que te leve para ver onde as mercadorias são produzidas, as cooperativas de tapetes, a parte onde apenas marroquinos compram, a parte que funciona como “praça de alimentação” e tantos outros cantinhos é um belo passeio – até porque, sozinho, é muito perigoso se perder por essas ruelas labirínticas da medina, mais escondidas (vou fazer um outro post sobre isso). No final, subir ao Terrasse des Épices para tomar um delicioso chá marroquino vendo aquele sem fim de cores lá de cima é pedidaça.
Espaço pra mini-saia...
... e pros trajes islâmicos na mesma praça
 Para mulheres viajando sozinhas, valem os mesmos conselhos de sempre, e já falei deles aqui no mês passado: não andar por locais desertos ou escuros, planejar seus itinerários, andar com passo determinado e, claro, não ligar para as “cantadas” que acontecem o tempo inteiro (lá em Marrakech eles ainda buzinam muito para turistas desacompanhadas, o tempo todo). Cara de paisagem resolve, em geral :D




Menino coloca as peças de couro para secar nos "bastidores" do souk

Peças de antiquário à venda na calçada dentro da Medina
O interior da espetacular madrassa
 No mais, é relaxar e aproveitar. Para sair, conversar com gente do mundo inteiro, fazer compras baratíssimas no souk, relaxar nos jardins de Menara, aproveitar a excelente vida noturna (o Bo-zin continua sendo meu local favorito), descobrir novos sabores e aromas, ouvir histórias. Passei dias lindos, saí todas as noites (os bares dos hotelaços são todos incriveis, do próprio Four Seasons ao novíssimo Delano, e a gente se sente bem segura, mesmo sozinha), fiz novos amigos, uma delícia.




Meninos numa pelada (com direito a camiseta do Ronaldo e tudo!) numa das ruelas perdidas da Medina
 Para quem fica mais tempo e tem tempo para escapadas ou, ao menos, passeios tipo bate-e-volta para fora de Marrakech, continuo recomendando, e muito, os passeios ao vale de Ourika (para ver bem a cadeia do Atlas, a produção de azeite e dos produtos com argan etc) e à linda Essaouira, beira-mar.